Sobre a Vida

Raízes

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Sempre pensei ter a alma como aquelas árvores de copa grande. Que anseiam por tocar as nuvens e macular o azul do céu. Por fazer sombra em terrenos onde arde o sol.

Nunca pensei ser, ao invés, daquele outro tipo. De grandes raízes. Que precisam de espaço sob a terra para crescer. Que cavam. Escavam. Estouram asfaltos. Racham calçadas. E que, disso, dependem para se sustentarem. Para manterem-se em pé.

Talvez por isso precisei, sempre, plantar-me em terrenos tão longíquos. Onde teria a certeza de não machucar, com minhas raízes, aqueles ao meu redor. E nem quebrar as fundamentações daquilo construído em meu entorno. 

E hoje, entre cada leve brisa de liberdade que sopra em meus galhos, sinto o frio da solidão percorrer minha estirpe. Que, por mais longa que seja, ironicamente, não deixarão – nunca – de estarem distantes.

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Sobre a Vida

E, que Vente

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Esta manhã, saí de casa desejando que ventasse.

Forte o bastante para bagunçar a certeza que penteava meus cabelos. Suave o bastante para soprar a poeira acumulada sobre minh’alma.
Forte o bastante para golpear meu rosto e girá-lo rumo ao norte. Suave para varrer as folhas que, no último outono, penso terem caído sobre meu coração.
Saí desejando que ventasse. Que ventilasse. Que, enfim, a vida se renovasse.
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Sobre a Vida

Cinemática

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Padecem minhas asas de um certo mal.
Que as faz desejarem pousar, mesmo depois de terem aprendido a voar.

Sofre também meu coração de tal.
Que o faz querer se arriscar, não se importando em sangrar. Nem com o tempo que demoraria para, uma vez mais, cicatrizar.

Talvez porque a vida tenha essa aversão à inércia, afinal.
Uma incapacidade de repousar. Uma incansável necessidade de se provar. De buscar, sempre, rachaduras por onde escoar. E, do conforto da segurança, encontrar modo de escapar.

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Sobre a Vida

Contra-forma

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Beba as palavras que não eu falei. Deixe que seu corpo bóie no mar de coisas que não expressei.

Respire cada virgula que, nas frases daquela conversa, eu não coloquei. Deixe que bata em seu rosto a brisa dos suspiros que não dei.

Permita que os sons que eu silencio te façam entender: é nas sombras que me deixo ver. Nas entrelinhas que me faço ler. Eu me mostro no avesso do meu ser.

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