Notas de Rodapé

Nota de Rodapé #15

De quantas
e, em quantas,
formas se pode quebrar um coração?

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Sobre a Vida

Ela

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Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

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Sobre a Vida

Sopro

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Querendo ser brisa, aprendi a devastar. Aprendi a sacudir as copas mais altas. E a arrancar as raízes mais profundas.

Sendo vendaval, aprendi a acalentar. Aprendi a secar lágrimas de desgosto. E a bagunçar os cabelos que emolduram sorrisos de um rosto.

Depois da estiagem, aprendi a ser vento. A correr entre os dias. A ser suave como podem, apenas, os intensos.

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Páginas dedicadas

Dois Botões

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Hoje, me sinto como as flores da minha infância. Sinto a mesma dor que seus galhos sentiam quando eram alvejados pela tesoura cruel da minha avó.

Dizia ser preciso tirar as flores já bonitas. Plantá-las em outos vasos. Talvez em alguns muito distantes. Dizia que, só assim, continuariam a florir.

Hoje, então, me sinto assim: como as flores da minha avó. Sentindo a falta de um par dos seus mais belos botões. Triste por abrir mão. Mas feliz por saber que, mesmo longe, a florir eles continuarão.


À Aisha e Larissa
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Sobre a Vida

Monstro

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Psiu! Não faça barulho. Ele pode acordar.

Ele vive no escuro, onde a luz não venceu a escuridão. Mija no breu. Como um animal, ele marca território nas sombras do meu coração.

Se alimenta de carinho. Rumina afeto. Regurgita indiferença. Ele saboreia o azedo da bílis com a qual enxágua a boca e molha seus beijos de adeus.

Quando faz frio, esquenta a pele áspera com os retalhos dos sonhos que espantou no meio da noite. Acredita no troco. E goza com a dor fazendo morada, agora, no outro.

Cheira à carniça dos sentimentos que matou sufocados. E sua o pus daqueles que sentiu prazer em ter machucado.

Ele é o porquê tanto temo minha verdade. É um monstro. Intrínseco. Congênito. De mim, indissociável.

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Sobre a Vida

Poda

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Alguém plantou essa árvore em mim. Espécie teimosa. De galhos seguros e tronco robusto. De madeira frágil, mas difícil de derrubar.

Um pé de força. No qual florescem coragem, esperança e fé. Um pé onde eu, essa criança ainda assustada, me penduro sempre que pressinto a queda. Onde me agarro para esperar que passe o vendaval. Para esperar que a tempestade se dissolva ao primeiro raiar do sol.

Uma árvore que é minha salvação. E minha maldição. Uma árvore que terá sempre raízes para me manter de pé. E galhos para me segurar. Mesmo agora que meu corpo, já cansado de lutar, queira apenas desmoronar e, derrotado, fazer do chão seu lugar.

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