Sobre a Vida

E, que Vente

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Esta manhã, saí de casa desejando que ventasse.

Forte o bastante para bagunçar a certeza que penteava meus cabelos. Suave o bastante para soprar a poeira acumulada sobre minh’alma.
Forte o bastante para golpear meu rosto e girá-lo rumo ao norte. Suave para varrer as folhas que, no último outono, penso terem caído sobre meu coração.
Saí desejando que ventasse. Que ventilasse. Que, enfim, a vida se renovasse.
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Sobre a Vida

Ponte

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Com o futuro já alpino no céu, vi erguerem-se também algumas sombras do passado.

Inundei minhas lembranças com a imagem daquele menino sem lugar. Enxarquei os olhos para encher o vácuo que, junto com o medo, me crescia no peito. Deixei, então, minha alma transbordar.

Lembrei da sensação de estar sozinho. Do quão libertador e assustador é. Lembrei que há muito a percorrer. Mas que outro tanto já o fora. Temi rever o velho. Temi ver o novo.

Mas, principalmente, temi o medo. Temi permanecer. Temi estacionar e não ter novas palavras para, minhas linhas, adornar.

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Sobre a Vida

Descompasso

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Há um descompasso entre o girar do mundo e o bater do meu coração. Um desencontro entre aquilo que desejo dos outros e aquilo que desejam de mim.

Os ponteiros do relógio não comportam meu tempo. Sou mais. Eu escorro pelas bordas de onde teimo caber.

Mas também sou menos. E não preencho os espaços aos quais me destinei. Deixo dois dedos de vazio, onde acumulam-se os medos. Os indesejados desejos. E as expectativas embaladas de frustração.

Sabe, acho que o preto dos meus olhos é mais profundo que azul do céu… E isso faz de mim um eterno incompleto. Um corpo sem lugar. Uma ânsia que vive sempre, por aí, a caminhar. Um coração sem-teto que só sabe vagar. Uma alma sem ter onde repousar.

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