Notas de Rodapé

Nota de Rodapé #15

De quantas
e, em quantas,
formas se pode quebrar um coração?

Anúncios
Padrão
Sobre a Vida

Ela

ncnc_ela

Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

Padrão
Sobre a Vida

Raízes

ncnc_raízes

Sempre pensei ter a alma como aquelas árvores de copa grande. Que anseiam por tocar as nuvens e macular o azul do céu. Por fazer sombra em terrenos onde arde o sol.

Nunca pensei ser, ao invés, daquele outro tipo. De grandes raízes. Que precisam de espaço sob a terra para crescer. Que cavam. Escavam. Estouram asfaltos. Racham calçadas. E que, disso, dependem para se sustentarem. Para manterem-se em pé.

Talvez por isso precisei, sempre, plantar-me em terrenos tão longíquos. Onde teria a certeza de não machucar, com minhas raízes, aqueles ao meu redor. E nem quebrar as fundamentações daquilo construído em meu entorno. 

E hoje, entre cada leve brisa de liberdade que sopra em meus galhos, sinto o frio da solidão percorrer minha estirpe. Que, por mais longa que seja, ironicamente, não deixarão – nunca – de estarem distantes.

Padrão
Sobre a Vida

E, que Vente

ncnc_equevente

Esta manhã, saí de casa desejando que ventasse.

Forte o bastante para bagunçar a certeza que penteava meus cabelos. Suave o bastante para soprar a poeira acumulada sobre minh’alma.
Forte o bastante para golpear meu rosto e girá-lo rumo ao norte. Suave para varrer as folhas que, no último outono, penso terem caído sobre meu coração.
Saí desejando que ventasse. Que ventilasse. Que, enfim, a vida se renovasse.
Padrão
Sobre a Vida

Contra-forma

ncnc_contraforma

Beba as palavras que não eu falei. Deixe que seu corpo bóie no mar de coisas que não expressei.

Respire cada virgula que, nas frases daquela conversa, eu não coloquei. Deixe que bata em seu rosto a brisa dos suspiros que não dei.

Permita que os sons que eu silencio te façam entender: é nas sombras que me deixo ver. Nas entrelinhas que me faço ler. Eu me mostro no avesso do meu ser.

Padrão