Sobre a Vida

Ela

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Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

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Sobre a Vida

Cinemática

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Padecem minhas asas de um certo mal.
Que as faz desejarem pousar, mesmo depois de terem aprendido a voar.

Sofre também meu coração de tal.
Que o faz querer se arriscar, não se importando em sangrar. Nem com o tempo que demoraria para, uma vez mais, cicatrizar.

Talvez porque a vida tenha essa aversão à inércia, afinal.
Uma incapacidade de repousar. Uma incansável necessidade de se provar. De buscar, sempre, rachaduras por onde escoar. E, do conforto da segurança, encontrar modo de escapar.

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Sobre a Vida

Contra-forma

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Beba as palavras que não eu falei. Deixe que seu corpo bóie no mar de coisas que não expressei.

Respire cada virgula que, nas frases daquela conversa, eu não coloquei. Deixe que bata em seu rosto a brisa dos suspiros que não dei.

Permita que os sons que eu silencio te façam entender: é nas sombras que me deixo ver. Nas entrelinhas que me faço ler. Eu me mostro no avesso do meu ser.

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Sobre a Vida

Mea Culpa

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Desculpa por não ter o coração aberto quando as suas portas estavam fechadas. Por não ter respostas suaves quando suas perguntas eram ásperas.

Desculpa por não pôr cores em meus horizontes quando o seu céu estava acinzentado. Por saturar meus sentimentos quando suas cores já o eram.

Desculpa por atear mais faíscas em seus incêndios. Por não saber como ter a alma leve, quando tudo que sua vida tinha era peso.

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