Sobre a Vida

E, que Vente

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Esta manhã, saí de casa desejando que ventasse.

Forte o bastante para bagunçar a certeza que penteava meus cabelos. Suave o bastante para soprar a poeira acumulada sobre minh’alma.
Forte o bastante para golpear meu rosto e girá-lo rumo ao norte. Suave para varrer as folhas que, no último outono, penso terem caído sobre meu coração.
Saí desejando que ventasse. Que ventilasse. Que, enfim, a vida se renovasse.
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Sobre a Vida

Sopro

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Querendo ser brisa, aprendi a devastar. Aprendi a sacudir as copas mais altas. E a arrancar as raízes mais profundas.

Sendo vendaval, aprendi a acalentar. Aprendi a secar lágrimas de desgosto. E a bagunçar os cabelos que emolduram sorrisos de um rosto.

Depois da estiagem, aprendi a ser vento. A correr entre os dias. A ser suave como podem, apenas, os intensos.

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Sobre a Vida, Sobre o Coração

Vazio

33-vazio

Há muito, fechei-me. Fiz casar chaves e fechaduras em minhas muitas portas. Fiz beijar ambas as bandas das cortinas em minhas muitas janelas. Fiz correr livre, dentro de mim – alheio ao externo – o calmo vento do vazio.

E correu. Bêbado de espaço. Como quis. Quando quis. Pra onde quis.

Há não-tão-muito, sufoquei-me. Vi esse vento escorrer pelas quinas do meu peito e ocupar as rachaduras deixadas pelo tempo. Vi seu varrer no mais raso e no mais profundo dos vincos do meu chão. Senti seu espalhar.

Dei asas a esse vazio que me inundou. Sem limites, como uma enchente do avesso. Que me alagou de seco. Que deu ao nada o espaço do tudo. E ao tudo um espaço de nada.

Erroneamente, permiti que o vento me ocupasse e me deixasse aqui: empanturrado de vazio. Farto de nada. Faminto por tudo.

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