Sobre o Coração

Entre Nós

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Hoje, o que há entre nós não comporta mais desculpas.

Porque, se me usara para preencher o vazio que em ti havia, também chorara até saciar a sede de vingança que em mim nascia.

Porque, se te negara para afirmar o orgulho que em mim crescia, também sonhara com os dias em que ti vivia.

Hoje, o que há entre nós é sem tamanho: grande demais pra um reencontro, pequena demais pra um abandono.

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Sobre o Coração

Sombra

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Ontem, sonhei com você, silhuetado em minha janela. Ontem, tomado pelo breu da sua presença, acordei com sua sombra iluminando os vazios do meu coração.

Vi o buraco estreito e profundo, de quando permiti que você cravasse em meu peito a sua bandeira. Ali, bem ao lado dos arranhões que me deixou, revi aqueles que me obriguei a fazer com os dentes, pra te arrancar a qualquer custo de mim.

Por último, vi o maior deles: o causado pela falta. Falta do pedaço de mim que você levou quando te exorcizei da minha vida. Falta da certeza de que – até dez linhas e um sonho atrás – realmente estavam vazios esses velhos buracos do meu coração.

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Sobre a Vida, Sobre o Coração

Vazio

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Há muito, fechei-me. Fiz casar chaves e fechaduras em minhas muitas portas. Fiz beijar ambas as bandas das cortinas em minhas muitas janelas. Fiz correr livre, dentro de mim – alheio ao externo – o calmo vento do vazio.

E correu. Bêbado de espaço. Como quis. Quando quis. Pra onde quis.

Há não-tão-muito, sufoquei-me. Vi esse vento escorrer pelas quinas do meu peito e ocupar as rachaduras deixadas pelo tempo. Vi seu varrer no mais raso e no mais profundo dos vincos do meu chão. Senti seu espalhar.

Dei asas a esse vazio que me inundou. Sem limites, como uma enchente do avesso. Que me alagou de seco. Que deu ao nada o espaço do tudo. E ao tudo um espaço de nada.

Erroneamente, permiti que o vento me ocupasse e me deixasse aqui: empanturrado de vazio. Farto de nada. Faminto por tudo.

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