Sobre a Vida

Ela

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Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

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Sobre a Vida

Não Dito

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Sempre troquei palavras pelo silêncio, covarde e comodamente acreditando que o não dito teria sua voz calada pelo tempo. Abafada pelo tic-tac dos ponteiros. Que seria encoberta por cada novo nascer do sol.

Seria lógico. Perfeito. Só não caberia nessa vida tão sem jeito.

O que não foi dito continua pensado. Por isso permanece. Com voz baixa. Fraca. Um quase sussurro, quase lamento. Um quase tormento. Ainda aqui dentro.

Ecoando pelo peito. Reverberando na cabeça. Escorrendo em palavras pelo canto da boca. O não dito, hoje faz-se ensurdecedor discurso que teimo em tentar esquecer.

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