Sobre a Vida

Ela

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Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

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Nuances

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Lembro de como você nos levava pra caminhar à noite antes de dormir. Lembro do medo de estar no escuro. E da segurança de estar ao seu lado.

Lembro de como você nos dizia para respirar fundo e fixar os olhos na imensidão sem foco do breu. Lembro de você falando que tudo ficaria bem. E de como tudo, depois de poucos segundos, te obedecia, e tornava-se tão visível como a lua distante lá no céu.

Foi com você que aprendi a ver o invisível. E a enxergar nuances na escuridão. Foi por você que aprendi a sentir o distante. A ver o brilho que reluz daquilo que não brilha, mas que nunca se apaga.


Feliz dia dos pais
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Sobre a Vida

Ponte

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Com o futuro já alpino no céu, vi erguerem-se também algumas sombras do passado.

Inundei minhas lembranças com a imagem daquele menino sem lugar. Enxarquei os olhos para encher o vácuo que, junto com o medo, me crescia no peito. Deixei, então, minha alma transbordar.

Lembrei da sensação de estar sozinho. Do quão libertador e assustador é. Lembrei que há muito a percorrer. Mas que outro tanto já o fora. Temi rever o velho. Temi ver o novo.

Mas, principalmente, temi o medo. Temi permanecer. Temi estacionar e não ter novas palavras para, minhas linhas, adornar.

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Sobre a Vida

Quando você se for

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Revivi algumas lembranças esquecidas de você. O cheiro da fruta no pé. O gosto da carne no pão. O puxar da vara de pescar. E o rádio de pilha dizendo “São Paulo campeão”.

Senti crescer, em meu peito, raízes de um medo que eu desconhecia, até então. Mais fortes e profundas que as das árvores do seu pomar. Raízes que só souberam me assustar. E, do outro lado do telefone, me fazer chorar.

Com medo da possibilidade de que o mundo possa perder, amanhã, a cor. E a vida um pouco daquele sabor. Com medo de ser seu fim o começo da minha dor. E do quão egoísta é pedir que meu coração esteja pronto quando você se for.

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