Sobre a Vida

Raízes

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Sempre pensei ter a alma como aquelas árvores de copa grande. Que anseiam por tocar as nuvens e macular o azul do céu. Por fazer sombra em terrenos onde arde o sol.

Nunca pensei ser, ao invés, daquele outro tipo. De grandes raízes. Que precisam de espaço sob a terra para crescer. Que cavam. Escavam. Estouram asfaltos. Racham calçadas. E que, disso, dependem para se sustentarem. Para manterem-se em pé.

Talvez por isso precisei, sempre, plantar-me em terrenos tão longíquos. Onde teria a certeza de não machucar, com minhas raízes, aqueles ao meu redor. E nem quebrar as fundamentações daquilo construído em meu entorno. 

E hoje, entre cada leve brisa de liberdade que sopra em meus galhos, sinto o frio da solidão percorrer minha estirpe. Que, por mais longa que seja, ironicamente, não deixarão – nunca – de estarem distantes.

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Atelier

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Nunca escondi que, assim como a agulha rasga o tecido, muitas vezes você me feriu ao ensinar-me os pontos que construiriam o bordado da minha vida.

A beleza. A lógica. A sequência de cada um deles. Você me mostrou que as coisas não devem ser bonitas só pela frente. Elas devem ser, principalmente, bonitas no avesso.

Talvez seja, por isso, que você tenha dito coisas que me reviraram e  fizeram-me ir ao extremo de cada nó do meu ser. Talvez seja, porque, você sempre soube que é no inverso das coisas que os pontos devem ser bem arrematados. Sem remendos. Sem lamentos.

Se costurei isso que, hoje, visto, foi porque você estava lá. Incisiva como uma agulha, fazendo a bainha do meu tecido sempre em exagero. Afiada como uma tesoura, cortando as pontas soltas das minhas linhas. Centrada como um novelo, devolvendo-me o fio da meada quando eu o perdia.

E por isso eu agradeço. Obrigado por ser minha alfaiate. Por esgarçar-me. E depois remendar-me. Por arrematar meus pontos e por-me em moldes tão exatos. Mas também me desculpe. Pelas tantas vezes que não soube apreciar a delicadeza e precisão do seu ofício. Por não ter entendido que seguramos a agulha com os mesmos dedos. Que, no fundo, somos linhas do mesmo carretel.


Àquela cuja importância, em minha vida, não se mede.
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