Sobre a Vida

Ela

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Ela costumava me encontrar durante a noite. Quando o corpo sucumbia. E a mente não dormia. Quando o silêncio era, já, ensurdecedor. E o peito se enchia de tremor.
Ela não costumava me causar terror. Envolta no escuro da noite, era uma presença quase irreal. Um veneno à alma. Amargo. Mas não letal.

Até que, ontem, ela me encontrou quando era dia. Quando eu vivia. E não previa.
Até que, ontem, me escancarou. Me encarou. Se apresentou. E me assustou.

Era a Solidão. Eu a reconhecia, mesmo pensando que não a conhecia.

Ela tinha a minha cara. Me consumia com os mesmos olhos que a encaravam. E me devorava com a mesma boca que a indagava.
Me calava com meu proprio silêncio. E entorpecia meu presente e meu futuro com a toxidade do meu próprio eu.

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Sobre a Vida

Encontro

21-encontro

Ontem tive um encontro. Do tipo esbarrão. Desses sem hora marcada. Casual. Causa dessas preocupações.

Ontem tive um encontro com meus limites.

Eu questionei sua indesejável presença. Fui respondido com um sorriso. Eu disse que ele deveria ter trocado de calçada ao me ver caminhando tão suave. Fui perguntado se havia necessidade, já que somos tão íntimos.

“Convivemos mais do que você percebe”, afirmou numa perturbadora proximidade. Afirmou e se foi. E me deixou com o rosto golpeado pelo peso de cada palavra. Encarado no fundo dos olhos. E Invadido na alma. E fragilizado nos tornozelos.

Ontem tive um encontro com essa parte de mim que procuro não encontrar. Rápido o bastante pra demorar o suficiente pra me desestruturar.

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