Sobre a Vida

Agulhas, Dores e Cura

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João era um menino de coração no alto e pés no chão. Refém da liberdade de uma infância descalça, de subir e descer a rua sem ver onde pisar, João estava preso à inevitabilidade de, seus pés, sempre machucar. Bastava sentir o fincar de um espinho em sua carne, que deixava para trás o riso e trazia à tona seu chorar.

Sentia uma dor que não via. E, por não a ver, não a aceitava. E por não a aceitar, a sofrer se recusava.

João apenas ficava ali, em silêncio, a tentando suportar. Até seus olhos encharcarem-se. Da dor que já não podia evitar sentir. E da que sabia estar ainda por vir. Da dor que sentiria quando seu pai o deitaria na cama e, com uma agulha na mão, furaria a sola do seu pé até achar, agarrar e arrancar o espinho ali intruso.

Um método bruto? Sim. Mas era a cura. Crua. Que fazia João chorar mais. Sangrar mais. Sofrer mais. Não doer mais.

E assim ele começou, a fundo, se cavar. Foi assim que esse menino descalço aprendeu a se curar: usando o sofrimento para fazer sarar. Mesmo que haja mais dor. E um masoquista ardor. Mesmo queimando-se com seu próprio sangue, escorrendo como antisséptico, em fumegante calor.

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3 comentários sobre “Agulhas, Dores e Cura

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