Sobre a Vida

João e o Pé de Chiclete

ncnc_joaoeopedechiclete

Abraçado à entrada da grande e, desde sempre, velha casa da minha avó, morava um jardim. Sapatinhos-de-princesa. Brincos-de-rainha. Margaridas e azáleas.

Tinha verde por todos os cantos. Com exceção daquele ao lado da sala de televisão. Aquele, onde, entre os infortúnios do Tom e as vitórias do Jerry, sempre caíam os chicletes já sem sabor que eu atirava pela janela durante toda a tarde.

Um dia, naquele pedacinho de terra, exposta como uma fratura em meio a tanto verde, cresceram alguns galhos tímidos. Uma planta que, orgulhosa da sua miudez, ostentava flores delicadas, de pétalas brancas como nuvens e miolo amarelo de fazer inveja ao sol.

– São flores de quê, vó?
– De chiclete.

E foi assim, sentado naquela janela, escorado contra o peito da minha avó, seguro entre seus já flácidos braços e sentido o gostinho de menta da vida dali da pracinha da igreja,  que eu acreditei.

Acreditei (e o sigo fazendo) no poder mágico que as coisas gastas, já sem sabor, tem de ainda florescer. Não sei… talvez um dia eu desacredite nessa mentira de vó. Assim como, há muito, já desacreditei naquele absurdo de que feridas saram quando se conhece o amor.

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “João e o Pé de Chiclete

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s