Sobre a Vida

Casa Grande

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Era uma casa grande. Acolhedora. De arquitetura antiga e janelas grandes. Das quais se avistava o longe. Das quais se via o nascer do sol de até depois de amanhã.

De tão grandes que eram, de tão abertas que as mantinha, a casa tornou-se um inoportuno convite às pedras dos muitos que em sua calçada passavam. Teve seus vidros trincados. A madeira de lei de suas aberturas arranhada. Teve sua sólida estrutura condenada.

Golpeada no mais fundo do seu alicerce, sentia que, a cada dia, reduzia-se mais a ruínas de si mesma. A cada dia menos inteira. Menos bonita. A cada dia mais estilhaçada.

Semeou, então, ao seu redor, um árido arbusto. Capaz de proteger o que, dela, ainda permanecera intacto. Anos se demoraram, e os espinhos cresceram. Altos e pontiagudos. Cresceram secos e afiados.

Lentamente, a mesma casa se viu escondida por trás de um medonho muro. Repelente, sim, às pedras. Mas também às pipas que alçavam vôo sobre seu telhado. E às borboletas que, por entre os buracos de seu vidro, aprenderam a voar, fazendo festa no interior de seus então vulneráveis cômodos.

Ah, pobre casa… Como sente falta das borboletas na sala de estar. Pobre casa… Quando começou a se ferir em seus próprios espinhos?

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5 comentários sobre “Casa Grande

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